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Catadores, universidade e empresas: conexões para avançar rumo a uma cidade Lixo Zero

há 11 minutos
5 min de leitura

Painel no Tecnopuc Experience reuniu diferentes perspectivas sobre os desafios da reciclagem, a importância da educação ambiental e o fortalecimento da logística reversa em Porto Alegre.

Como diferentes atores podem se conectar para transformar a gestão de resíduos e avançar rumo a uma cidade Lixo Zero? Essa foi a pergunta que orientou o painel realizado no Tecnopuc Experience, em 22 de outubro, como parte da programação da Semana Lixo Zero Porto Alegre 2026.

Mediada por Paula Moletta, da Green Thinking, a conversa reuniu Sirlei Batista de Souza, catadora, gestora ambiental e coordenadora do Centro de Triagem Vila Pinto; a professora Istefani Carisio de Paula, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e idealizadora do Recicla Bonja; e Luiza Fante, Governance Officer da Fante Indústria de Bebidas e presidente do Conselho Deliberativo da ASLORE.

A partir de experiências concretas, o encontro trouxe reflexões sobre os desafios enfrentados pelos catadores, o papel da educação ambiental, o potencial das iniciativas comunitárias e a necessidade de fortalecer a participação das empresas na cadeia da reciclagem.

A principal mensagem foi clara: avançar rumo a uma cidade Lixo Zero exige mais do que separar corretamente os resíduos. É necessário conectar pessoas, projetos, organizações e mercados para que os materiais sejam efetivamente recuperados e valorizados.


Educação ambiental e mercado: desafios para quem está na linha de frente da reciclagem


Um dos pontos destacados por Sirlei Batista foi a falta de educação ambiental como um dos grandes desafios enfrentados pelos catadores e pelas organizações de triagem.

A separação inadequada dos resíduos compromete o trabalho realizado na ponta da cadeia, dificultando o aproveitamento dos materiais e aumentando os obstáculos para sua recuperação. A destinação correta depende não apenas da existência de estruturas de coleta e triagem, mas também do envolvimento da população e da compreensão sobre como separar e descartar os resíduos.

Sirlei também chamou a atenção para uma questão importante: nem toda embalagem que pode ser reciclada tecnicamente encontra mercado para comercialização.

Isso significa que determinados materiais, mesmo sendo recicláveis, podem não ter compradores interessados em adquiri-los e reinseri-los na cadeia produtiva. Quando não existe demanda da indústria, o trabalho de separação realizado pelos catadores encontra limites para gerar retorno econômico.

O cenário evidencia que a reciclagem depende de mais do que a disposição correta dos resíduos pela população. É necessário que a indústria também se envolva na valorização dos materiais recuperados, contribuindo para ampliar as possibilidades de comercialização e fortalecer a cadeia da reciclagem.

Separar corretamente é fundamental, mas garantir que os materiais tenham valor e destino também é parte essencial da solução.


Recicla Bonja: participação comunitária e qualidade dos materiais


A experiência do Recicla Bonja, apresentada pela professora Istefani Carisio de Paula, demonstrou como a mobilização comunitária pode contribuir para melhorar a qualidade dos materiais destinados à reciclagem.

O programa já conta com mais de 300 famílias cadastradas, das quais cerca de 60% participam ativamente das entregas de materiais. Outro dado que chama a atenção é que aproximadamente 90% dos materiais recebidos são recicláveis limpos.

Os números evidenciam o potencial de iniciativas que aproximam a gestão de resíduos do cotidiano das comunidades. Quando as pessoas compreendem a importância da separação e participam de forma consistente, é possível melhorar a qualidade dos materiais recebidos e favorecer seu aproveitamento.

A experiência também reforça a importância de aproximar universidade e território. Projetos como o Recicla Bonja mostram como conhecimento, articulação e participação comunitária podem contribuir para desenvolver soluções conectadas às necessidades reais das pessoas.

Mais do que encaminhar resíduos para a reciclagem, iniciativas dessa natureza ajudam a construir uma cultura de responsabilidade compartilhada, na qual a população reconhece seu papel na cadeia de recuperação dos materiais.


Logística reversa: o papel das empresas no fortalecimento da cadeia


A discussão sobre a falta de mercado para determinados materiais recicláveis também evidencia a importância da participação das empresas na construção de uma cadeia mais estruturada.

Nesse contexto, a ASLORE, patrocinadora da Semana Lixo Zero Porto Alegre 2026, atua no fortalecimento da cadeia da logística reversa das indústrias, contribuindo para aproximar os diferentes atores envolvidos nesse processo.

Muitas empresas ainda enfrentam desafios para estruturar e aprimorar seus processos de logística reversa. Avançar nesse campo exige articulação, organização dos fluxos de materiais e conexão com os demais participantes da cadeia, incluindo organizações de catadores e outros agentes responsáveis pela recuperação e destinação dos resíduos.

A logística reversa é uma parte importante dessa transformação, mas seu funcionamento também depende de condições que vão além das estruturas empresariais. A qualidade dos materiais descartados, a existência de compradores e a capacidade de reinserção dos recicláveis nos processos produtivos influenciam diretamente os resultados.

Por isso, fortalecer a logística reversa significa também olhar para a cadeia como um todo e reconhecer que a responsabilidade precisa ser compartilhada.

A educação ambiental tem um papel fundamental nesse processo. Quando a população não recebe informações adequadas sobre separação e descarte, materiais que poderiam ser recuperados podem perder qualidade ou ter seu aproveitamento comprometido. Da mesma forma, quando não existe demanda industrial por determinados recicláveis, o trabalho realizado pelos catadores encontra limitações econômicas.

A aproximação entre indústrias, sistemas de logística reversa, organizações de catadores e iniciativas de educação ambiental é, portanto, essencial para ampliar o aproveitamento dos materiais e fortalecer a economia circular.


Uma cadeia que precisa funcionar de ponta a ponta


As experiências compartilhadas no painel revelam que os desafios da gestão de resíduos estão interligados.

A população precisa de informação e orientação para separar corretamente. Os catadores e as organizações de triagem precisam de condições adequadas de trabalho e de mercados que valorizem os materiais recuperados. A universidade pode contribuir com conhecimento e desenvolvimento de soluções conectadas às necessidades dos territórios. Já as empresas precisam avançar na estruturação da logística reversa e na valorização dos materiais que retornam à cadeia produtiva.

Essas frentes não devem funcionar de maneira isolada.

A educação ambiental contribui para melhorar a separação dos resíduos. A mobilização comunitária fortalece a participação das famílias. A articulação entre universidade e território ajuda a desenvolver iniciativas contextualizadas. E o envolvimento empresarial pode contribuir para estruturar os fluxos de materiais e ampliar as possibilidades de comercialização.

Quanto mais conectados estiverem esses atores, maiores serão as possibilidades de fortalecer a cadeia da reciclagem e avançar em direção a uma economia circular.


Semana Lixo Zero Porto Alegre: transformar reflexão em ação


O painel integrou a programação da Semana Lixo Zero Porto Alegre 2026, promovida pela Green Thinking, e reforçou a importância de aproximar diferentes setores para enfrentar os desafios relacionados aos resíduos e ao desperdício.

A discussão mostrou que avançar rumo a uma cidade Lixo Zero exige tanto mudanças nos hábitos cotidianos quanto transformações estruturais na forma como produzimos, consumimos, descartamos e reinserimos os materiais na economia.

A responsabilidade é compartilhada, mas cada ator tem uma contribuição específica: a população pode separar melhor seus resíduos; as organizações de catadores precisam de reconhecimento e condições adequadas de trabalho; a universidade pode apoiar iniciativas conectadas à realidade dos territórios; e as empresas precisam contribuir para viabilizar a logística reversa e ampliar o aproveitamento dos materiais.

O apoio da ASLORE à Semana Lixo Zero Porto Alegre reforça a relevância de envolver o setor empresarial nessa mobilização e de promover conexões que contribuam para fortalecer a cadeia da reciclagem.

O desafio é transformar essas responsabilidades em parcerias permanentes, capazes de gerar resultados sociais, ambientais e econômicos.

Afinal, uma cidade Lixo Zero não se constrói apenas com o que fazemos depois do descarte. Ela também depende das escolhas que evitam o desperdício, valorizam os recursos e fortalecem quem trabalha diariamente para que os materiais tenham um novo destino.

Conectar esses atores é um passo fundamental para transformar boas iniciativas em soluções duradouras para Porto Alegre.

 
 
 

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